A CASA DO VAMPIRO NO ALTO DO ALTO DA GLÓRIA

Casa de Dalton Trevisan na esquina das ruas Ubaldino do Amaral com Amintas de Barros. Foto: Reprodução/GoogleMaps.
Uma casa decadente, saudosa de dias de pompa, em uma esquina privilegiada, de uma
cidade eternamente provinciana, mesmo quando emula uma metrópole. Construção envelhecida,
com paredes gastas, portas e janelas sempre trancadas. Pouco restava de vida ali. Solitária,
desconectada, decepcionada. Ainda assim, ecoava histórias, sussurros, suspiros, convidando a um
abraço desconfortável de nostalgia.
De fora para dentro, um mistério, uma confusão entre criador e criatura, um conjunto de histórias fragmentadas. Sobre o mestre dos contos, um maestro de notas feias e acordes dissonantes. Um vampiro, uma entidade que, de tanto viver às sombras, de tanto desprezo, de tanto apontar feridas, de tão genialmente iluminar aquilo que se deseja esconder, destacou-se, ganhou prêmios, tornou-se cidadão ilustre, tema de vestibular, motivo para holofotes e orgulho bairrista.
De dentro para fora, uma visão embaçada de uma cidade tacanha e fria, uma distorção entre presente e passado, real e imaginário, amigos e inimigos, uma aspiração de luxúria em contraponto a uma rotina de solidão. Um retrato duvidoso e seco, sem qualquer necessidade de cores, excessos, modos, valores, pudores ou censura. Um desejo que nunca sacia, de personagens vis e sem propósito, uma aflição.
Por décadas o castelo desencantado transformado em souvenir obscuro e seu vampiro recluso alimentaram narrativas. Ironicamente, em uma cidade de pontos turísticos maquiados, o local virou uma atração não oficial. Para curiosos, leitores e admiradores inconformados em busca de um lampejo, uma espiada, um relance de seu morador. Numa tentativa de decifrá-lo, quem sabe. Porque, apesar do sucesso, só o que se sabe sobre ele é o que escapou por suas obras, o que se supõe, o que dizem. Nada confirmado, nada documentado. Propositalmente ou não, tudo amplificando a aura de enigma ao seu redor.
Dizem que a sorte às vezes presenteava os mais dedicados visitantes do local. Avistavam o conde da noite caminhando com sacolas de supermercado, ao entardecer. Cabeça baixa, boné cobrindo parte do rosto, roupas comuns, tênis branco. Não bem um presente, talvez uma decepção. Afinal, a imagem de um senhor qualquer, não de uma criatura sórdida, de capa preta manchada de sangue e sofrimento, em nada alimentava o frisson que tanto buscavam.
Há também relatos de que alguns de fato conseguiram adentrar o castelo. Certa vez, dizem, o mestre se compadeceu de um de seus discípulos, que há dias enfrentava o frio em frente ao portão, livro em mãos, em busca de um autógrafo ou um contato qualquer. Convidou-o a entrar, a se aquecer. O senso comum diria que foi seduzido, depois destruído. Uma mordida no pescoço, fluídos sugados, até que energia nenhuma mais restasse. Cairia duro como uma pedra, ao lado do livro aberto na página do raríssimo autógrafo conquistado. Reza a lenda, no entanto, que nada disso aconteceu. Conversaram, riram, tornaram-se amigos, trocam cartas e caderninhos de anotações até hoje.
De acordo com fontes imprecisas, o vampiro só pretendia sair dali morto, ou nem mesmo assim. Faria todo sentido: aquele monumento à solidão, expressão física sombria de desencanto e crueza seria mesmo o lar ideal para uma assombração, para compor o folclore popular. Um cenário abandonado, onde uma entidade vampiresca atormenta a vizinhança com crueldade, malícia e ressentimento. Lenda urbana perfeita em qualquer cidade, não fosse o sarcasmo do tempo e a perversão até de perversos que caracteriza Curitiba.
Porque mesmo para um ser das trevas, chegou a velhice, trazendo com ela seus desafios. Doenças, dificuldades, perda de autonomia, necessidade de auxílio. E o palácio, tão ou mais decrépito que seu dono, precisando urgentemente de reformas, reparos, manutenções. Se isso já seria suficiente para antagonizar à presença eterna do grande antagonista em seu castelo, veio o golpe fatal, como vingança mesquinha da Transilvânia das Araucárias.
Cansada de ser estereotipada, a cidade mandou um personagem que bem poderia ter saído de um dos contos do autor para assaltar a sua casa. Não um ladrão assombroso de grandes metrópoles, daqueles que dominam o submundo, surgindo das sombras com mãos velozes, tomando tudo o que desejam e fugindo sem deixar vestígios. Do contrário, um ser corroído, desenganado, um pobre coitado. Incompetente, não conseguiu nem escapar. Foi preso em flagrante, envergonhado.
Engano, porém, pensar que, da propriedade, o assaltante não levou nada. Levou justamente o que ela tinha de mais precioso: seu ilustre morador. O assalto, dizem, foi a investida final para expulsar o vampiro, que hoje vive em um apartamento no centro. Com isso, expulsou também o véu de suspense, o encantamento e os fãs resignados. Rebaixou a lenda a uma simples casa.
Sobre o futuro daquela esquina, pode-se apenas especular. Quem sabe um novo empreendimento de alto padrão, onde ricos cínicos poderão regozijar-se imersos em piscinas aquecidas privativas na sacada. Nomeado em homenagem ao antigo morador, seguido de um estrangeirismo para engrandecer, algo como Trevisan Palace. Talvez um justo tombamento, considerando-se a importância histórica e arquitetônica do local. Neste caso, um museu, um café, onde gente pernóstica e chata discutirá o legado do autor enquanto aprecia um latte macchiato.
Por fim, uma alternativa triste, mas condizente com a cidade hipócrita que o mestre pintava. As ruínas invadidas por viciados, prostitutas, delinquentes. Todos misturados, amontoados, sujos, fedidos, sobrevivendo de forma promíscua, do modo mais degenerado que há. Esbofeteando a Curitiba com baixeza, bem ali, no que restar da casa do vampiro, no alto do Alto da Glória.
Crônica vencedora do concurso Novas Lendas, da Editora InVerso, publicada em obra de mesmo título. Exemplares podem ser adquiridos no link abaixo:
https://editorainverso.com.br/...
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